Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Relatórios...

Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco insecto. Estava deitado na cama, sobre a sua carapaça dura, e sempre que levantava um pouco a cabeça via a barriga abaulada, castanha, subdividida em escoras arqueadas, no cimo da qual o cobertor, prestes a resvalar para o chão, se mantinha a custo. As suas muitas pernas, lastimosamente magras em comparação com o resto do corpo, tremeluziam-lhe, impotentes, diante dos olhos.
[...]
O olhar de Gregor voltou-se então para a janela, e o tempo triste - ouviam-se gotas de chuva caindo na chapa do parapeito - fê-lo cair numa profunda melancolia. «E se eu tentasse dormir mais um pouco e esquecesse todas estas tolices?» - pensou. Mas isso era completamente impossível, porque estava habituado a dormir sobre o lado direito e, na situação actual, não conseguia alcançar a posição pretendida.
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(in A Metamorfose, Franz Kafka - 1912)

Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Conclusões momentâneas...

Pausa agora no inverno, sol ameno. Por cima do arvoredo do hospital há um palácio de cristais dourados um palácio não exagero vê-se da janela do quarto e eu fixo-o com interesse
ele também mas passado um segundo
já o perdeu apesar de continuar a olhá-lo. Esta figuraçã cintilante repete-se a qualquer momento em que se paroxime da janela mas assim que se afastar é como se tivesse abandonado uma vidraça deserta.
Andar andar sempre a andar.

(in De Profundis, Valsa Lenta, José Cardoso Pires - 1997)

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Pedido

Entrei outro dia na loja de uma prestável alfarrabista lisbonense. Já lá sabia eu existir um peculiar montinho de partituras antigas, daquelas cuja datação é possível de ser feita pelo grau de amarelecimento do papel...

Desta vez, com tempo, iria analisá-las bem, ler, pensar, ouvir na cabeça, escolher, comprar, porque não? Viria para casa com certeza mais rico...

Pedi portanto para as ver, ao que me negou a dona, dizendo que já não as havia por lá...

Má sorte, penso eu, vim tarde... Como sabia ser grande o monte que procurava, por curiosidade apenas, comecei um pequeno inquérito sobre o seu paradeiro... Pequeno e curto, soube logo, ouvindo a impensável resposta dela...

"Sabe, veio cá outro dia um arquitecto, viu o monte aí espalhado e levou-as todas! Disse que precisava delas para forrar paredes..."

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Por favor!

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Domingo, 2 de Janeiro de 2011

Metempsicose

Ardentes filhas do prazer, dizei-me!
Vossos sonhos quaes são, depois da orgia?
Acaso nunca a imagem fugidia
Do que fostes, em vós se agita e freme?

N'outra vida e outra esphera, aonde geme
Outro vento, e se accende um outro dia,
Que corpo tinheis? que materia fria
Vossa alma incendiou, com fogo estreme?

Vós fostes nas florestas bravas feras,
Arrastando, leôas ou pantheras,
De dentadas de amor um corpo exangue...

Mordei pois esta carne palpitante,
Feras feitas de gaze fluctuante...
Lobas! leôas! sim, bebei meu sangue!


(in Sonetos, Antero de Quental - 186?)

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Conto...

Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação.
Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão!
Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão.
Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. Os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais...
Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias...
Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina!
A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas.
A planície!... O descampado infinito, loiro de sol e trigo... O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo... A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro.
Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco...
Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.
A planície...
Um som fino de corneta.
Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez?
Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco.
Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria.
A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos...
Assobios.
O Bronco não fazia bem o papel...
Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro.
Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria?
Palmas, música, gritos.
Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim.
Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo.
Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto.
Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira?
Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez.
Nova picada no lombo.
- Miura! Cornudo!
Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena.
Pronto!
A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar.
Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer.
Gritos da multidão.
Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio?
Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel.
Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para
se atrever assim a transpor a barreira?
A figura franzina avançou.
Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente.
Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou:
- Eh! boi! Eh! toiro!
A multidão dava palmas.
- Eh! boi! Eh! toiro!
Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, ei-lo.
Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido.
Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento.
Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor.
Mais palmas ao dançarino.
Parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo.
O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo.
Silêncio.
Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez.
Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo, até lhe não poder sair do domínio dos chifres.
Agora!
De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor.
Palmas, gritos.
Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem!
Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:
- Eh! toiro! Eh! boi!
Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos!
Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.
Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados.
Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?!
Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado.
Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria.
Mas o outro estava escudado.
Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão.
Voltou à carga.
O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais.
Protestos da assistência.
Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda.
Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum Zé-Ninguém!
Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caiu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação.
Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo.
Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular.
Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou.
Deu, como sempre na miragem enganadora.
Renovou a investida. Iludido, outra vez.
Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada, a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.


(in Miura, Bichos, Miguel Torga - 1940)

Domingo, 19 de Setembro de 2010

Tratados ficcionais (a propósito...)

Outre sa prédilection pour la noblesse, mademoiselle Cormon eut la manie très excusable de vouloir être aimée pour elle. Vous ne sauriez croire jusqu'où l'avait menée ce désir. Elle avait employé son esprit à tendre mille pièges à ses adorateurs afin d'éprouver leurs sentiments. Ses chausse-trapes furent si bien tendues que les infortunés s'y prirent tous, et succombèrent dans les épreuves baroques que'elle leur imposait à leur insu. Mademoiselle Cormon ne les étudiait pas, elle les espionnait. Un mot dit à légère, une plaisanterie que souvent elle comprenait mal, suffisait pour lui faire rejeter ces postulants comme indignes: celui-ci n'avait ni coeur ni délicatesse, celui-là mentait et n'était pas chrétien; l'un voulait raser seus futaies et battre monnaie sous le poêle du mariage, l'autre n'était pas de caractère à la rendre heureuse; là, elle devinait quelque goutte héréditaire; ici, des antécédents immoraux l'effrayaient; comme l'Église, elle exigeait un beau prêtre pour ses autels; puis, elle voulait être épousée pous sa fausse laideur et ses prétendus défauts, comme les autresfemmes veulent l'être pour les qualités qu'elles n'ont pas et pour d'hypothétiques beautés.

(in, La Vieille Fille, Honoré de Balzac)

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Saga do Aleijado - Reexposição

Voltam as dores!...

Depois de seis semanas de estática forçada, o médico diz, na terceira consulta: «Mas isso não lhe dói? Já era suposto doer, e muito!...», ao que só me resta a interrogação entre a loucura do senhor ou a desesperança relativa ao "é suposto doer muito"...

De facto, retomar a marcha e voltar a fazer força e ligar os tendões e músculos adormecidos é quase tão doloroso como voltar a partir o pé. Exagero talvez, porque desta vez sei que é suposto, mas ainda assim...

Agora, a sensação de alívio a de largar o apoio, e as asneiras que se vai fazendo, que bem sabem! Um joguinho de futebol só com o pé direito (e dois remates com o esquerdo!), algumas caminhadas demasiado longas, mas tão curtas!...

O retomar da normalidade coxeante! Que ar-fresco!

Duarte

Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

Tentações gastronómicas

Hoje confirmei-me um voraz gastrónomo. Como tal, achei por bem abrir por estas bandas (largas a tudo o que me apetecer, em boa verdade), um cantinho dedicado a essa Arte, não esquecida, mas insípida aos mais nomeados artistas. O que é uma pena!

Para notificar o momento como ele merece, digo-vos apenas que entre conversas sobre vinho, o Tavares e o El Bulli deveria eu ter pedido um risotto com gambas e espinafres, mas a gulodice e um pouco de Pavlov fizeram-me pedir o Il tartufo.

Resumindo, compõem o prato dois bombons de carne divina sobre um mar de batatas esparregadas, toda a paisagem pintada com o melhor Aceto Balsamico e um toque de molho indizível. Só a sensação de fatiar a carne nos faz adivinhar o sabor cremoso do que temos pela frente, as batatas sendo os espinhos que nos desenganam a espuma e nos obrigam a continuar.

Como interlúdios, generosos fios de limonada com hortelã, esta que já antes tinha ajudado algumas pequenas tostas a degustar um escuro creme de azeitonas. Nem vou contar sobre o sorvete de tangerina...

Duarte

Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010

Mais um mundo...

Era toda de mistério a encantadora. Ungiam-na ao andar sombras aureoladas, transparentes d'alma, sombras que ela mesma, da sua carne-luz, suscitava em miragem velada. E era oiro golfado a sua voz a enclavinhar-se em luxúria, oiro esbraseado por um sol desconhecido, longínquo e disperso...
Aromas capitosos a ilhas misteriosas pintavam-lhe a carne, macerando-lha, crepusculizando-lha em ânsia esbatida - a temperar o desejo talvez, ah! mas sem dúvida contorcendo-a em requintes perversos de esfinge saudosa a luar e morte... Toda ela enfim se esculpia em chama, e era oscilação, sonoridade e pasmo, estrebuchando a louca do poema medonho, denso como uma bebedeira roxa após uma noite de amor e estrangulamentos...


(in O Fixador de Instantes, Céu em Fogo, Mário de Sá-Carneiro)